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sábado, 2 de julho de 2011

Maybe tomorrow...

Queridos todos, esta é a minha livre tradução para o texto "Maybe Tomorrow" de Lindy Redmond, New York State Challenge Master for Instant Challenges.
Acho um texto ótimo para trabalhar com alunos e professores, filhos e pais, em defesa da livre expressão das crianças (através das imagens também).

“Eu faso”, disse o menino de dois anos,
“Mamãe, eu faso agora”,
“Oh, não, querido”, ela responde
“Deixe eu mostrar pra você como é!”
“Eu quero tentar” – ele disse aos três anos – "Quero arrumar a minha cama,”
“Não, você vai deixar amarrotado.
Que tal brincar de colorir?”
E ela abriu o livro de colorir sobre a mesa, perto dele.
“Veja, tente colorir dentro das linhas. Sem borrar”
“Mas, mamãe, eu quero desenhar um mundo.
Cheio de borboletas, com montanhas altas e arco-íris no céu!”
“Pinte com cuidado” – ela recomendou – "As flores de vermelho e todo o céu de azul claro.
Dentro das linhas”.

Certo dia, aos quatro anos, quando ele tentava amarrar seus sapatos, seu pai lhe disse:
“Eu vou lhe mostrar como se faz. E, depois, você pode tentar”.

Assim foi até seus cinco anos - os outros sempre lhe dizendo “o que fazer e como fazer”
Lhe "demonstrando" e lhe dando regras.

Então, um dia, o ônibus escolar o apanhou em sua porta.
E o pequeno garoto pensou que agora, finalmente, ele poderia explorar o mundo,
poderia sonhar e imaginar, descobrir as coisas por si mesmo.
Colorir com as suas cores e experimentar.
Voar até as altas montanhas!
Poderia criar.
Desenvolver seus talentos e descobrir seus dons e habilidades.

A professora entrou na sala e cumprimentou a todos,
“Peguem seus lápis e papéis" – ela disse – "Nós vamos nos divertir hoje!
Sigam este pontilhado para fazer um coelho.
E depois coloquem seu nome com capricho.
Os coelhos devem ser marrons com grandes orelhas, e devem ficar todos parecidos”

“Mas eu não quero meu coelho reto. Em pé, parado…
Quero ele agachado, no meio da grama. E branco. E fim.”

“Todos eles ficarão legais se nós deixarmos todos parecidos.
Agora, por favor, sente-se e comece seu trabalho. Nós temos muito o que fazer”.

Então o menino sentou-se lentamente.
Seus olhos tinham perdido o brilho,
Ele agora sabia o que tinha pela frente: monotonia e vazio.
“Talvez mais tarde, pensou o rapazinho, ela deixe eu fazer do meu jeito.
Talvez amanhã eu possa colorir meu desenho sozinho...”

Assim, na manhã seguinte, quando eles pegaram os lápis, o menino pensou:
“Farei um céu todo laranja. Vai ficar bem diferente, sem dúvida.”
“Pinte com cuidado. – A professora disse – Todo o céu de azul claro e sempre dentro das linhas”.


“Talvez amanhã…”, pensou o menino, “Talvez nunca…”
E assim ele começou a colorir o céu de azul claro.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Censuras em Literatura Infantil e Juvenil - parte 01

Algumas semanas atrás recebi de uma amiga querida, mãe de dois meninos, um e-mail a respeito dos termos empregados em um livro bastante adotado nas escolas: “A árvore que fugiu do quintal, de Álvaro Ottoni Menezes, que já está na sua 21º edição!

Dizia a mensagem da minha amiga: “Como autora o que você acha da qualificação que ele dá para os gordos?(...) Em tempos de bullying vc não acha que estas qualificações ficam mal? (...) Fiquei pensando sobre o assunto e queria saber como isso é visto na literatura infantil.”

Abaixo segue um dos trechos do livro que causou dúvidas, não só na minha amiga, mas nas demais mães da escola:


“Vivíamos bem felizes até aparecer na cidade um homem grande, de nome Serjão, gordo feito uma baleia, com bigodão e voz grossa de meter medo. (...)  Serjão foi lá no quintal e mandou derrubar tudo (...) O baleião me revoltou.”


Fiquei muito feliz pela mensagem questionadora ter chegado a mim, principalmente porque na semana seguinte eu participaria de uma mesa sobre “Censuras na Literatura Infantil e Juvenil” e já vinha, portanto, refletindo com bastante atenção sobre o assunto.


Assim, embora tenha achado engraçadíssimo a árvore chamar o vilão da história de "Serjão baleião" concordo que este é um tratamento pejorativo, preconceituoso e desrespeitoso.
E acredito, sim, que há que se ter cuidado com o conteúdo dos livros.
Mas, atenção: cuidar não quer dizer tirar o livro da sala de aula ou proibir sua leitura.

Vivemos há pouco tempo uma grande polêmica sobre a obra de Monteiro Lobato, o maior nome da literatura infantil brasileira. Seus livros, que já foram queimados em pátios de escolas em tempos de outrora, por serem "comunistas e revolucionários", nos tempos atuais caíram na malha cada vez mais fina e perigosa do politicamente correto. Monteiro Lobato, através da Emília, que, segundo os estudiosos é o personagem que incorpora o alter ego do escritor, chama tia Nastácia de negra beiçuda e de macaca, entre outros termos pejorativos. Era Lobato racista? Sim, era. E por isso seus livros não irão mais pra sala de aula??!! Vamos deixar de ler para nossos filhos os livros que embalaram nossa infância? Caçadas de Pedrinho, Reinações de Narizinho, Memórias da Emília devem ser obras banidas das bibliotecas? Queimadas no pátio das escolas novamente? Lobato era racista sim, numa época em que toda a sociedade brasileira era extremamente racista. E, como sua literatura prezava por trazer para o debate questões atuais, por retratar sua época e sua sociedade – tendo como intenção e objetivo maior aproximar a literatura da gente, do povo e das crianças  – um dos seus recursos literários era o uso da linguagem coloquial. Assim, obviamente, suas obras reproduzem um discurso comum à época, repleto de termos usualmente empregados para tratar das pessoas negras. Nossa sociedade  viveu 380 anos de escravidão, não dá pra simplesmente esconder isso embaixo do tapete. É querer negar a história do Brasil. Não discordo dos que defendem que para se ler Lobato hoje é preciso contextualizar sua obra e o período em que foi escrita, afinal, Lobato já se tornou um clássico e os clássicos, para ampliar as leituras, devem ser contextualizados.

Enfim, os tempos mudam, a sociedade muda e, com ela, seus valores. Eu mesma, como escritora, não posso garantir que daqui há 30 anos, as coisas que digo e escrevo hoje não parecerão preconceituosas para uma sociedade que está sempre se reformulando e reconfigurando.

No entanto, as formas de censura parece que não mudam. Tirar o livro de sala de aula é censurá-lo! É privar os alunos de conhecer história e histórias. É evitar abordar certos assuntos, como se assim fosse possível negar sua existência. Ou ainda subestimar as crianças e jovens acreditando que eles não tem senso crítico nem valores e que levarão ao pé da letra o que está escrito. Como se o livro tivesse esse poder de, por si só, induzir ao comportamento racista, ao bulliyng, a violência... Frente a música, a internet, a tevê e todas as mídias a que os jovens e as crianças estão expostos – e nos quais se espelham como padrão de comportamento – eu acredito que o livro é menos perigoso, ainda mais quando lido em sala de aula, ou seja, quando a sua leitura poderá ser acompanhada de atividades e propostas que irão gerar análises, discussão e reflexão.


Livros não podem continuar sendo vistos como mais recipientes de um saber total e absoluto. Essa imagem, que acompanha a história do homem e da leitura, de tempos em que eram pouquíssimos os que detinham o conhecimento da leitura e da escrita e assim exerciam poder sobre os demais, já não faz sentido em tempos de globalização e superexposição das informações. Na literatura, livros são vozes de escritores, pessoas como nós, de carne e osso, que usam as palavras para se expressar. Sujeitos que, como todos nós, estão passíveis de terem suas idéias questionadas. E assim, se o livro tem conteúdo “questionável” (olha que bem empregado esse adjetivo!) isto  não é motivo para proibir sua leitura, em casa ou na escola, pelo contrário, é gancho, pra abrir conversas, pra falar de respeito ao próximo, de respeito as diferenças e aos valores de cada um. Muitas vezes os professores evitam tais livros pois não se sentem seguros para discutí-los com os alunos. Talvez eles também precisem entender que não são mais aquelas figuras que simbolizavam a autoridade máxima da sala de aula por serem detentora de um saber inquestionável. Hoje entendemos que os professores também tem muito o que aprender com os alunos e com uma boa conversa entre eles. "Tá certo chamar alguém assim?" "Por que o autor usou essas palavras?"" Na época que ele escreveu o livro podia e agora não pode, por quê?""Apelidos assim são ofensivos?" "Você já chamou alguém assim?" Como você se sentiria se alguém falasse algo assim pra você?"
Ensinar, é mais do que derramar matéria sobre o aluno, é estimular o pensamento crítico, o questionamento e a troca de idéias. Nem sempre a turma vai conseguir chegar a um veredicto sobre o assunto, haverá discordâncias porque não existe um única "verdade" e isso também deve ser ensinado

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

FELIZ 2011!


Queridos todos

Meus votos de muita PAZ, SAÚDE e FELICIDADES
para todos os dias do ano que se inicia!

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Dinâmicas de Leitura em sala de aula

Não sou professora e não tenho experiência em sala de aula, mas, recentemente, fui convidada a participar de uma mesa onde deveria falar para professores, bibliotecários e promotores de leitura sobre a importância da leitura literária na sala de aula.
Pensei que tanto ou mais relevante do que a minha experiência como escritora e ilustradora de livros para crianças e jovens - e como mãe que estimula a leitura das filhas - é a minha experiência como leitora apaixonada que sou.
Eu deveria falar de LIVROS e LEITURAS, mas estava mais interessada em falar sobre pessoas: sobre LEITORES e suas relações com o livro.
Este texto é uma tentativa de registro das ideias que expus nesse encontro com o objetivo de questionar, fazer pensar e também sugerir algumas dinâmicas.
Para começar a conversa, parto do óbvio: TODOS SOMOS PESSOAS DIFERENTES – o que, obviamente, é muitas vezes esquecido, pois é da natureza humana a tendência a generalizar.
Somos diferentes porque, embora humanos e vivendo no mesmo planeta, temos, cada um de nós, diferentes histórias, diferentes personalidades, diferentes formações. Passamos por diferentes experiências. Vivemos em diferentes contextos sociais e familiares. Temos, cada qual, nossas predileções e nossas dificuldades. Sentimos, vemos e percebemos o mundo de diferentes maneiras. Temos diferentes pontos de vista. E, por fim, somado a tudo isso, estamos vivendo, cada qual, momentos diferentes da nossas vidas. E aqueles, que trabalham com livros e leituras, PRECISAM RESPEITAR ESSAS DIFERENÇAS!
Porque essas diferenças irão transparecer nas nossas relações com o livro. Alguns são leitores devotados, outros apenas apreciam comedidamente e outros precisarão de muito estímulo para se tornarem leitores de literatura.
Diferentes leitores – mesmo que tenham idade aproximada, estejam na mesma sala/ série/ escola/ bairro/ cidade – precisam de diferentes tipos de leituras e dinâmicas para poder, quiçá, usufruir do tão afamado, e difícil de encontrar, “prazer da leitura”.
Por isso, as escolhas individuais dos leitores, por um ou outro livro, devem ser não só respeitadas como estimuladas.
Coloque-se, caso não tenha vivido a experiência tão comum, no lugar do aluno, que terá de ler por um ou dois meses, junto com toda sua turma, o livro determinado pela sua professora, independente da sua vontade. Por mais interessante que possa ser esse livro, a simples imposição dele como leitura obrigatória criará nesse aluno alguma resistência, em maior ou menor grau. Pois é... E para truncar ainda mais essa leitura, este aluno terá que realizar trabalhos e/ou deveres sobre essa leitura.
Agora, imagine-se no cinema, assistindo um filme e sabendo que ao sair da sessão você terá de responder a um questionário sobre o que lhe agradou ou desagradou na história, qual a mensagem do filme, qual o seu personagem preferido e porque, qual o momento mais emocionante, etc. Lembrando: suas respostas serão avaliadas e valem pontos! Será que você conseguirá relaxar para desfrutar e “mergulhar” no filme?
Tenho vivido como mãe a experiência de ver minhas filhas leitoras, totalmente desestimuladas em relação as leituras escolares. Basta colocar o livro como leitura obrigatória para que ele se torne chato. E o pior: paralelamente a leitura, elas devem preencher as famosas fichas de leitura e os terríveis questionários que dissecam a obra a tal ponto de perguntarem aos alunos coisas sobre as quais o próprio autor sequer saberia responder! Sem exagero! Ninguém merece essa tirania! Muito menos as nossas crianças!!!
Que me importa, e agora falo como escritora, que meus leitores saibam quantos são os personagens dos meus livros, seus nomes, idades e profissões? Ou qual a seqüência correta das falas que aparecem desordenadas na folha? Ou ainda o que EU, autora, quis dizer com uma frase pinçada do meu livro????!!! Por favor, não importa o que eu quero dizer! O que importa é o que meus possíveis leitores podem entender ou pensar a partir daquilo que eu disse ou às vezes apenas sugeri ou provoquei.
Enfim, o que quero dizer é que, a dinâmica como ainda se dá de adoção de livros em sala de aula está longe de ser a maneira mais democrática, humana e produtiva de incentivar a leitura e a cultivar leitores.
Critico duramente as fichas de leitura que, engessam as múltiplas interpretações e que, transformam a leitura literária em dever de casa ou avaliação. Elas destroem todo e qualquer prazer que o leitor possa ter encontrado na leitura de um livro.
Assim como o uso equivocado da proposta de “multidisciplinaridade” aplicada a leitura literária, transformando-a em “matéria-prima” das aulas de ciências, português, matemática, geografia, etc. Para introduzir conteúdo informativo, temos os milhares de didáticos e “paradidáticos” disponíveis no mercado.
Literatura não é para ensinar conteúdo, é para fazer pensar, sonhar e questionar.
Essa é a riqueza e a mágica da leitura literária: TOCAR A PESSOA POR TRÁS DO LEITOR!

Como disse, na primeira linha deste texto: não sou professora. Mas sou curiosa, observadora e atrevida a ponto deixar aqui algumas sugestões de dinâmicas de leitura que bem trabalhadas nas escolas, costumam render bons frutos.

Ciranda de livros
Conheci a “ciranda literária” da forma que descrevo aqui através da professora Kátia Vieira que leciona no Colégio Sion do Rio de Janeiro. A dinâmica consiste em adotar em uma única turma a leitura de 5 ou 6 títulos diversos (indicados pela professora) e trabalhá-los simultaneamente por um determinado período. Para isso, cada aluno, conforme solicitação da professora, compra um exemplar de um dos títulos indicados e assim teremos de 5 a 6 exemplares de cada título. Num dia combinado da semana, os alunos levam para escola seu exemplar e todos os livros são colocados sobre a mesa da professora e cada aluno terá a liberdade de escolher o título que irá ler naquela semana. Para evitar maiores conflitos, na primeira semana da ciranda a professora pode estabelecer que cada um lerá, em primeiro lugar, o título que foi adquirido por ele e, nas semanas seguintes, cada um poderá escolher o livro que quiser. Após a leitura, quando for trocar o seu livro, o aluno é estimulado a dividir com os colegas o que achou da leitura ou contar algo sobre o livro que leu. Ao final de um mês e meio, cada aluno da turma terá lido todos títulos indicados e cada poderá escolher um deles para apresentar um trabalho que poderá ser, por exemplo, uma redação, uma HQ, um cartaz, uma encenação, uma pesquisa, um reconto ou uma poesia, entre tantas outras possibilidades. Terminada a ciranda, cada aluno escolhe qual título quer levar para casa - não necessariamente o adquirido por ele, desde que consiga negociar a troca com os colegas.

Troca-troca de livros
No troca-troca de livros, cada aluno traz de casa um livro seu, já lido, que gostaria de trocar. Nesta atividade a capacidade de negociar com o colega a troca do seu exemplar pelo título que lhe interessa terá como base a “propaganda” que cada aluno é capaz de fazer do livro que lhe pertence: para tanto precisa tê-lo lido e saber dizer oque nele pode interessar ao colega. É necessário estabelecer algumas regras para que a dinâmica funcione bem, como por exemplo: só trazer livros em bom estado, adequados a faixa etária e evitar livros muito elaborados ou demasiado simples.

Grupos de Leitura
Leitores apaixonados gostam de compartilhar suas experiências de leitura. Por que não estimular os alunos a criarem um grupo de leituras em que poderão trocar idéias e pareceres sobre os livros que leram? Pode-se dividir a turma em grupos e deixá-los escolher um ou dois títulos para leitura em casa e posterior bate-papo e troca de idéias em sala. Cabe ao professor sugerir diferentes estilos literários: poesia, contos, crônicas, clássicos, livros de mistério, terror, comédia...

Multimídias
Filmes e peças de teatro baseados em livros, poemas musicados ou letras de música que são pura poesia, séries de tevê que recriam clássicos da literatura são sempre estimulantes para despertar o interesse por uma obra ou um autor. Estas mídias podem ser o ponto de partida ou o fechamento de uma dinâmica de leitura.

Contação
Por mais que as crianças dominem a leitura, a contação é uma ferramenta importantíssima para despertar o interesse por uma obra. É do ser humano gostar de ouvir histórias. Nossos ancestrais faziam isso em torno da fogueira, em rodas, em saraus. A leitura não precisa ser dramatizada, mas envolvente, despertando a curiosidade e prendendo a atenção. Capriche no ritmo, na entonação e escolha histórias que você gosta porque é preciso gostar do que se vai ler para poder contagiar o ouvinte.

Biblioteca Viva
Bibliotecas eram, até pouco tempo, o ambiente das pesquisas escolares, local de estudo, silêncio e concentração. Hoje as pesquisas escolares são dinâmicas – antigas enciclopédias de dezenas de volumes deram espaço aos computadores, às revistas especializadas e aos CDs e DVDs, entre outros recursos. A biblioteca escolar assumiu assim, um outro papel: espaço de estimulo a leitura e ao desenvolvimento de leitores. Para tanto a biblioteca atual deve ser um ambiente acolhedor, um lugar onde os alunos possam ter livre contato com o livro. Observá-los, manuseá-los e folhá-los. Para tanto deve-se oferecer aos alunos – principalmente aos menores – a oportunidade de ver a capa dos livros ao invés de mantê-los enfileirados e comprimidos lado a lado em inacessíveis prateleiras. Cestas ou caixas com livros, distribuídas pela sala, na altura dos olhos e das mãos, funcionam muito bem. Um tapete com almofadas pode funcionar melhor do que mesas e cadeiras. É preciso ter liberdade de escolha, de gostar ou não e de mudar de ideia sobre um livro – a qualquer momento.
Na biblioteca de uma escola, aqui do Rio de Janeiro, me encantei com um mural de dicas de leitura elaborado pelos próprios alunos. Ali eles “publicavam” suas opiniões sobre os livros que haviam lido e gostado, ou não. Eram pequenos bilhetes para os colegas sobre curiosidades e descobertas sobre autores, personagens, coleções... Segundo a responsável pela biblioteca, o mural funcionava muito bem porque um livro indicado por um colega que tem interesses semelhantes é quase que garantia de boa leitura. Em tempos de internet o mural pode ainda ter continuidade no site da escola.
Também acho essencial que os alunos tenham liberdade de levar livros para casa, como empréstimo, estendendo assim o prazer da leitura e das suas descobertas. E podendo, inclusive, compartilhá-lo com sua família. Uma amiga me contou outro dia da sua satisfação ao começar a freqüentar, junto com a filha, a biblioteca municipal do seu bairro, cujo. O dia de visitar a biblioteca e de exercer a livre escolha da próxima leitura era aguardado com expectativa por ambas.
Bibliotecas vivas tem portas abertas a alunos, professores, funcionários da escola e as suas respectivas famílias oferecendo um acervo atual, diversificado e bem conservado
Para finalizar, deixo aqui algumas palavras da querida Tatiana Belinky:
“Espalhe os livros pela casa toda mas nunca mande a criança ler. Mandar é vacinar contra. Deixe a curiosidade natural da criança agir. Nunca diga ‘esse livro não é pra você’, deixe-a descobrir por si só”.



Marilia Pirillo
Escritora e ilustradora de livros para crianças e jovens.

terça-feira, 13 de julho de 2010

Texto Elucidativo sobre Direitos Autorais e Impostos

Pois decidi, na bela noite de hoje, que cabia publicar aqui,
no meu espaço para divagações, alguns esclarecimentos
que se fazem muito necessários sobre negociação de contratos
e remunerações justas para o meu trabalho e dos demais colegas ilustradores.

Começo com um artigo assinado pelo Departamento Jurídico da CBL
(Câmara Brasileira do Livro)
e publicado pela Revista Panorama Editorial já há algum tempo.
Clique nas páginas para visualizá-las em tamanho maior.




segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Um bom Natal e um 2010 repleto de alegrias!


Estes são meus votos sinceros a todos os amigos e amigas
companheiros de jornada!

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

À Doçura de Quintana!

Como porto-alegrense talvez seja uma grande falha
nunca ter postado aqui uma declaração de amor a Quintana.
Cresci lendo Pé de Pilão e Lili inventa o mundo. Decorei!
Mais tarde li, reli, e degustei seus versos que até hoje
trago guardados no fundo de minh'alma.
Aqui umas poucas e preciosas linhas do poetinha.


Seiscentos e sessenta e seis
A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6a.feira...
Quando se vê, passaram 60 anos!
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio
seguia sempre em frente...
e iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas.

Do livro "Nova Antologia Poética"


Das utopias

Se as coisas são inatingíveis...
ora!não é motivo para não quere-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
a mágica presença das estrelas!

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

As Ilusões da Literatura

Estou lendo um livro ótimo!
"Cultura Letrada" da Márcia Abreu me foi recomendado pela professora Ninfa Parreiras,
em nosso curso "Tempo e Memória na Literatura" na Casa da Leitura.
Questionador, ácido por vezes, põe em cheque todos os conceitos
que tentam definir e classificar o que é literatura, grande literatura,
literatura menor ou simplesmente leitura.
Virou livro de cabeceira, para ler, reler e consultar.
Dele retirei o texto abaixo do escritor Mario Vargas Llosa:


"Condenados a uma existência que nunca está à altura de seus sonhos,
os seres humanos tiveram que inventar um subterfúgio
para escapar de seu confinamento dentro dos limites do possível: a ficção.
Ela lhes permite viver mais e melhor,
ser outros sem deixar de ser o que já são,
deslocar-se no espaço e no tempo sem sair de seu lugar,nem da sua hora
e viver as mais ousadas aventuras do corpo, da mente e das paixões,
sem perder o juízo ou trair o coração."

sábado, 26 de setembro de 2009

Minha visita desta tarde


Esse miquinho apareceu na minha janela hoje,
acho que só pra alegrar o meu dia!
Como boa anfitriã que sou, lhe ofereci uma maçã
e em troca recebi muitos pulinhos
e acrobacias no meu varal de roupas.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

Ando (ar)riscando uns versos

Estou participando de uma Academia de Ginástica... Poética! quem diria!
Nunca dei de escrever versos, mas sempre gostei de lê-los!
E o mestre incentiva a gente: Luiz Raul Machado, que dispensa apresentações,
traz cada coisa bonita pra nossa inspiração!
E eu sigo lá, todos os sábados, atrevida!
Arriscando escrever e, sem vergonha!, mostrar ;)


Minhas raízes

Derramo por terra raízes
sob o solo onde caí.
Raízes que, fundas, perfuram
e procuram, e procuram
o alimento, o sustento
Criando garras
me agarro
ao lugar onde nasci.

Broto tímida, me ergo aos poucos.
Busco a luz, preciso de ar.
Abro meus braços em folhas,
balanço ao vento,
sonho voar.

Minhas raízes me prendem,
não posso esquecer o que sou.
Então lanço meus dedos em ramos,
para o alto, para a imensidão.
O mais distante possível
dos pés que mantenho no chão.

A chuva, sem dó, chicoteia.
Lava minh’alma sem perdão.
Desabrocho e, mesmo em dor,
sou fértil, fecunda
e dou crias em flor.

Flores nascidas para o mundo,
que colorem, perfumam
e, inevitavelmente, se vão.
Levadas pelo vento,
murchas pelo tempo,
caídas pelo chão.

Criando suas próprias raízes,
cumprindo a sina do ser:
resistir ao duro inverno
e a seca do verão,
pra brotar primavera
naturalmente,
nunca em vão.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Cem anos de Lévi Strauss


"O sábio não é o homem que dá as respostas verdadeiras,
mas é aquele que coloca as verdadeiras perguntas".

Claude Lévi Strauss

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Anna Claudia Ramos


A cerca de três anos tive a felicidade de conhecer a Anna Claudia Ramos
em uma oficina sobre literatura infantil no já extinto espaço Arte Clara.
Quando o espaço fechou rumei para o Atelier Vila das Artes,
uma casa de vila sossegadíssima em plena Barata Ribeiro,
onde a Anna Claudia coordena oficinas literárias voltadas para LIJ.
Ali, conheci várias pessoas
que hoje são minhas amigas queridas e companheiras de leituras e escritas:
Sueli Boston, Flávia Côrtes, Sandra Pina, Lila Maia,
Tereza Campitelli, Myryam Ruth Coelho...
Um grupo danado de bom e que está rendendo muitos frutos!
Em maio de 2008 a Editora Larousse lançou o nosso primeiro livro em conjunto:
E em agosto o segundo livro de contos: Alguns Segredos e outras histórias.
Na época do lançamento do primeiro livro queríamos colocar uma dedicatória
do nosso grupo para a Anna Claudia, mas não foi possível...
Como esse blog é meu e quem manda aqui sou eu rsrsrsr
lá vai nosso textinho para a amigona e mestra:


"As pessoas não se encontram por acaso,
elas se atraem quando têm interesses comuns.
Anna Claudia Ramos nos atraiu como um imã!
Por meio dela nos encontramos e formamos um grupo de amigas-irmãs.
Juntas lemos, estudamos, trocamos idéias e escrevemos para crianças e jovens.
Toda semana, numa casa de vila, no coração de Copacabana,
onde por encanto todo o barulho se dissipa e toda a correria cessa,
nos reencontramos e conversamos, nos inspiramos,
transpiramos e lapidamos cada linha dos contos que aqui estão.
Por isso esse livro é dedicado ao Atelier Vila das Artes
e à Anna Claudia, amiga, incentivadora e sempre mestra."
Meio piegas? Talvez...
Por isso está aqui e não no livro rsrsrsrs
Anna querida, sorry, eu não resisti. s
Saúde, sucesso, alegria e muita luz no seu caminho :)

O gato malhado e a andorinha Sinhá


Acabei de ler "O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá"


Não me recordo de ter lido na infância. Tanto melhor, porque não creio que seja para crianças. Talvez para os pais contarem a seus filhos. Talvez pequena tenha assistido alguma encenação sobre o livro, ou apenas imaginei que a assisti à medida que o li, não sei. Só sei que a história foi lindamente encenado na minha cabeça. Livro delicioso! Literatura de primeira. Mas há que se ter a malícia e a sensibilidade poética para desfrutá-lo por inteiro e assim amar Jorge.
Desfrutemos destes pequenos trechos que escolhi a dedo:


" Desejo dizer que há gente que não acredita em amor à primeira vista. Outros, ao contrário, além de acreditar afirmam que este é o único amor verdadeiro. Uns e outros têm razão. É que o amor está no coração das criaturas, adormecido, e um dia qualquer .... De repente... desperta de seu sono à inesperada visão de um outro ser. Mesmo se já o conhecemos, é como se o víssemos pela primeira vez e por isso se dia que foi amor à primeira vista."


"Juntos... encontraram recantos deliciosos, descobriram novas nuances de cor nas flores, variações na doçura da brisa, e uma alegria que talvez estivesse mais dentro deles que mesmo nas coisas em derredor... Porque – eu vos digo – temos olhos de ver e olhos de não ver, dependendo do estado do coração de cada um."


" A poesia não está somente nos versos, por vezes ela está no coração, e é tamanha, a ponto de não caber nas palavras."


Ai, ai! Jorge... sempre e muito Amado.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Quimera


O vento sopra.
Fecho meus olhos e abro meus braços
deixando livres os livros
para que alcem vôo
como os pássaros em revoada.
Que eles ultrapassem fronteiras,
muros, desertos, barreiras
e se espalhem pelo mundo
para pousar nos braços
daqueles que tem fome de ler.
Que levem histórias novas
para aqueles que cansaram
de ouvir sempre as mesmas histórias;
que levem histórias alegres
para os que já não encontram
motivos para sorrir;
que levem histórias sensíveis
para os endurecidos pela vida;
que levem histórias de esperança
para os que não tem mais horizontes.
E que nesse vôo se multipliquem
pelo número de olhos que os lerem
Que se misturem as pessoas
e se colem aos seus corpos, mentes e almas.
Que se tornem objetos de desejo
e uso comunitário;
tela, música, teatro e exposição
meio de propagação
para novas idéias e experiências
promovendo assim as transformações
de que nosso mundo tanto precisa.
Imagem e texto criados por Marilia Pirillo

Clarice Lispector


"Ver a verdade seria diferente de inventar a verdade?"

Visitei a exposição de Clarice no CCBB com um caderninho na mão. Eu e praticamente todos ali presentes - tentávamos reter nas linhas toscas, um pouco do mistério e da magia de Clarice.
Fiquei encantada com as centenas de gavetas das memórias de Clarice. Pena... só algumas tinham chave...

"Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu".


E eu que já andava a muito tempo querendo Clarice, também a encontrei lindamente homenageada no livro do Jorge Miguel Marinho - Lis no Peito Um livro que pede perdão. Foi nas suas páginas que encontrei a frase abaixo. Aqui transcrita para confessar toda a inveja que senti de Clarice ao ler as inúmeras cartas que ela trocava com seus amigos - de vida, de sonhos, de letras, de "maldição".

" Gosto de poder manter o silêncio junto de alguém. É mesmo a condição de uma amizade para mim.
Um amigo é aquele com o qual se pode partilhar o silêncio...como se partilha a palavra".

Marina Colasanti


Empolgada e trabalhando arduamente para escrever minicontos para jovens.
Leio, leio, leio muito. E deixo registrado aqui um dos meus favoritos:
o prólogo do livro Contos de Amor Rasgados, da maravilhosa Marina Colasanti.


**********************************

Enfim, um indivíduo de idéias abertas

A coceira no ouvido atormentava. Pegou o molho de chaves, enfiou a mais fininha na cavidade. coçou de leve o pavilhão, depois afundou no orifício encerado. E rodou, virou a pontinha da chave em beatitude, à procura daquele ponto exato em que cessaria a coceira.
Até que, traque, ouviu o leve estalo e, a chave enfim no seu encaixe, percebeu que a cabeça lentamente se abria.
*****************************

domingo, 1 de fevereiro de 2009

Os Segredos da Ficção


" Nada é tão espontâneo que não exija esforço concentrado.
Nenhuma grande obra nasce do acaso...
O talento, caso exista, se revela pelo trabalho.
Esforço e empenho. Exercício permanente. Continuado."

Os Segredos da Ficção, livro de Raimundo Carrero sobre a arte e o ofício de escrever.

Bartolomeu Campos de Queiroz


"Minha cidade
tinha três ruas
e eu fazia três anos.
Havia a rua de cima,
a rua de baixo
e a rua do meio.
Com três anos eu já sabia
olhar, escutar e perguntar.
Quem olha e escuta, pergunta.
As três ruas nasciam
na praça da igrejade São Sebastião.
O Santo, com rosto de anjo e corpo de Tarzan, tinha mais de
três flechas fincadas
no corpo.
Meus três anos começaram no dia
do meu aniversário.
As três ruas nasceram antes de mim e não acabavam nunca.
Buscavam outros rumos para chegar
ao fim do mundo.
Eu tinha três anos
e não sabia
o tamanho do meu caminho... "

Bartolomeu Campos de Queiroz
Imagem criada por mim em uma das oficinas de Sarmede

"O livro, caindo nalma
é germe, que faz a palma,
é gota, que faz o mar."

Castro Alves

As coisas que a gente fala


As coisas que a gente fala

As coisas que a gente fala saem da boca da gente
e vão voando, voando, correndo sempre pra frente.
Entrando pelos ouvidos de quem estiver presente.
Quando a pessoa presente é pessoa distraída, não presta muita atenção.
Então as palavras entram e saem pelo outro lado sem fazer complicação.
Mas às vezes as palavras vão entrando nas cabeças,
vão dando voltas e voltas, fazendo reviravoltas e vão dando piruetas.
Quando saem pela boca, saem todas enfeitadas.
Engraçadas, diferentes, com palavras penduradas.
Mas depende das pessoas que repetem as palavras.
Algumas enfeitam pouco. Algumas enfeitam muito. Algumas enfeitam tanto, que as palavras – que engraçado!– nem parecem as palavras que entraram pelo outro lado!

Ruth Rocha